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Nvidia negocia garantir US$ 250 bilhões para a OpenAI — e Wall Street voltou a falar em bolha

A garantia bilionária permitiria à OpenAI alugar o maior data center já anunciado. A estrutura reacendeu o debate sobre financiamento circular na indústria de IA.

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Servidores em data center com iluminação azul, infraestrutura usada para treinar e rodar modelos de inteligência artificial
Foto: Pexels/Cookiecutter

Existe um número que resume o momento atual da inteligência artificial melhor do que qualquer benchmark: US$ 250 bilhões. É o tamanho da garantia financeira que a Nvidia estaria negociando para viabilizar o aluguel, pela OpenAI, do maior data center já anunciado no mundo — um complexo de 10 gigawatts no sul de Ohio, nos Estados Unidos.

A informação foi publicada pelo Wall Street Journal no domingo (26) e confirmada pela CNBC na segunda-feira (27), com base em pessoas próximas às conversas. A Nvidia não comentou. As negociações seguem em aberto e podem mudar — ou fracassar.

A reação do mercado foi imediata: as ações da Nvidia caíram mais de 4% na segunda-feira, arrastando boa parte do setor de semicondutores. O motivo não foi o tamanho do número. Foi o formato do negócio.

O que exatamente está sendo negociado

Vale separar as peças, porque a imprensa embaralhou os valores nos primeiros dias:

  • US$ 250 bilhões — garantia (ou backstop) da Nvidia sobre a dívida de arrendamento e construção do campus. Não é dinheiro adiantado: é a promessa de cobrir os pagamentos se o inquilino falhar.
  • Até US$ 350 bilhões — negociação separada, para financiar os próprios chips que vão dentro do data center. Isso não está incluído na garantia acima.
  • Mais de US$ 500 bilhões — custo total estimado do projeto completo, somando obra, energia e aceleradores.
  • US$ 30 bilhões — o que a Nvidia já investiu diretamente na OpenAI, em março deste ano.

O dono e desenvolvedor do campus é a SB Energy, subsidiária de energia do SoftBank. A OpenAI entraria como inquilina, com um contrato de arrendamento de cerca de 20 anos. Seria o primeiro data center em que a empresa figura como locatária direta, e não como cliente de Microsoft, Amazon ou Oracle.

Por que a OpenAI precisa de um fiador

Aqui está o ponto que explica toda a engenharia financeira: a OpenAI não tem classificação de crédito de grau de investimento. A empresa ainda não é lucrativa, apesar de ser avaliada por investidores privados em algo próximo de US$ 1 trilhão.

Sem grau de investimento, levantar dívida de longo prazo para um projeto de centenas de bilhões fica caro — ou impossível. Com a Nvidia como garantidora, a SB Energy consegue tomar emprestado apoiada no balanço da Nvidia, e não no da inquilina. Na prática, os credores passam a avaliar o risco de crédito da fabricante de chips, não o da empresa de IA.

É a mesma lógica de um fiador em contrato de aluguel — só que com onze zeros. E existe precedente recente: o Google fez algo parecido ao garantir obrigações de arrendamento da Fluidstack, empresa que opera TPUs do próprio Google.

Um data center sobre uma antiga usina de urânio

O terreno tem uma história. O campus fica em Piketon, no condado de Pike, a cerca de 110 km ao sul de Columbus, sobre a antiga Portsmouth Gaseous Diffusion Plant — instalação que enriqueceu urânio para o programa nuclear militar americano de 1954 até 2001 e ainda passa por descontaminação.

A área pertence ao Departamento de Energia dos EUA, que a incluiu numa lista de 16 sítios federais liberados para construção de data centers. A SB Energy arrenda o terreno, não o compra. A obra teve início oficial em 20 de março de 2026, com a presença do secretário de Energia Chris Wright, do secretário de Comércio Howard Lutnick e do fundador do SoftBank, Masayoshi Son.

E a energia? O Japão está pagando parte da conta

Dez gigawatts é uma quantidade absurda de energia — mais do que muitos países inteiros consomem. Para alimentar o complexo, o plano prevê 9,2 GW de nova geração a gás natural, mais cerca de US$ 4,2 bilhões em obras de transmissão em parceria com a AEP Ohio.

O financiamento dessa parte vem de fora: o Japão comprometeu aproximadamente US$ 33 bilhões no projeto de geração, dentro de um acordo comercial firmado com os Estados Unidos. A primeira fase, de cerca de 800 megawatts, é esperada para 2028 — potência suficiente para abastecer algo em torno de 640 mil residências.

O termo que assustou o mercado: financiamento circular

Repare no desenho do negócio: a Nvidia garante a dívida da cliente que vai comprar chips da Nvidia, apoiada no crédito da própria Nvidia. O fornecedor está, na prática, financiando a demanda pelo seu próprio produto.

Críticos chamam isso de financiamento circular. Defensores chamam de círculo virtuoso. A diferença entre os dois depende inteiramente de a demanda por IA se confirmar.

O estrategista de tecnologia da Jefferies, Jeffrey Favuzza, avaliou que investidores enxergaram no caso o exemplo mais claro e mais volumoso de financiamento circular até aqui. Não é a primeira vez que o tema aparece: a Nvidia já investiu US$ 30 bilhões na OpenAI, US$ 10 bilhões na Anthropic e participou de dezenas de rodadas em provedores de nuvem que alugam capacidade rodando em placas da própria Nvidia.

Na sexta-feira anterior, a empresa também anunciou uma parceria com o grupo sul-coreano SK que envolve mais de US$ 500 bilhões em negócios entre as duas companhias. Somando tudo, o mercado se viu diante de mais de US$ 750 bilhões em acordos anunciados quase ao mesmo tempo.

O fantasma da Lucent

A comparação histórica que voltou às mesas de análise é a da Lucent Technologies. No boom das telecomunicações do fim dos anos 1990, a fabricante emprestava bilhões às operadoras para que elas comprassem seus equipamentos de rede. Enquanto o dinheiro circulava, as vendas explodiam. Quando a bolha das pontocom estourou e as operadoras quebraram, sobraram calotes e baixas contábeis bilionárias. A Lucent acabou incorporada pela francesa Alcatel em 2006, num acordo de US$ 13,4 bilhões.

Jim Cramer, da CNBC, resumiu o desconforto lembrando ter vivido o ano 2000 e não querer a sequência — sem, porém, questionar a solidez operacional da Nvidia hoje.

O outro lado do argumento

Nem todo mundo vê armadilha. A gestora Janus Henderson defende que a onda de megaacordos de infraestrutura funciona como um círculo virtuoso: num mercado em que os chips avançados são escassos, empresas não apenas fazem pedidos — elas travam fornecimento combinando compromissos de compra de longo prazo com financiamento.

Há também um dado concreto de escala que ajuda a dimensionar o risco. As garantias de arrendamento já divulgadas pela Nvidia somam cerca de US$ 3,5 bilhões de exposição, com US$ 712 milhões em custódia. A empresa encerrou seu ano fiscal, em 25 de janeiro, com US$ 62,6 bilhões em caixa e títulos negociáveis. Ou seja: o valor discutido para Ohio é de outra ordem de grandeza — mas uma garantia só vira desembolso se houver inadimplência ou outro evento previsto em contrato.

O que ainda pode dar errado

  • Nada está assinado. Os termos não foram fechados e as fontes são anônimas. O acordo pode encolher, mudar de formato ou simplesmente não acontecer.
  • A conta da OpenAI só cresce. A projeção de gastos com computação da empresa até 2030 subiu de cerca de US$ 600 bilhões para algo próximo de US$ 750 bilhões.
  • A pressão de preço vem da China. Modelos de pesos abertos, em boa parte chineses, vêm corroendo o poder de precificação de quem vende IA fechada por assinatura e por token.
  • A energia é política. Quem recebe acesso à energia do sítio federal é decidido em Washington, com participação do secretário de Comércio.

Por que isso importa para quem está no Brasil

Três conexões diretas. A primeira é a bolsa: Nvidia, Microsoft e correlatas pesam nos BDRs e nos ETFs de tecnologia que muito investidor brasileiro carrega na carteira — e a volatilidade dessas ações passou a responder tanto a notícia de engenharia financeira quanto a resultado trimestral.

A segunda é o custo da IA. Se a infraestrutura for financiada com dívida cara, a conta reaparece em algum momento nos preços de API e assinatura que empresas brasileiras pagam. Se a aposta der certo e a capacidade sobrar, acontece o inverso.

A terceira é energia e data centers no Brasil. O país aparece nas conversas globais como destino de infraestrutura de IA justamente pela matriz elétrica. Cada gigawatt disputado no exterior aumenta a pressão — e o interesse — por projetos por aqui.

Este texto é jornalístico e informativo. Não constitui recomendação de investimento.

Fontes: Wall Street Journal (reportagem original), CNBC, Tom's Hardware, Data Center Dynamics, Bloomberg, Al Jazeera e Benzinga.

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