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Tekever compra Flowcopter e reforça domínio nos drones

A Tekever comprou a escocesa Flowcopter para reforçar os seus drones de carga pesada e longo alcance. É a segunda aquisição em dois meses, enquanto a tecnológica portuguesa prepara uma ronda de 500 milhões de euros.

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Drone de asa e rotores em voo, ilustrando os sistemas aéreos não tripulados da Tekever
Foto: Unsplash

A Tekever, fabricante portuguesa de sistemas aéreos não tripulados, anunciou a 1 de setembro de 2026 a compra da Flowcopter, uma empresa de engenharia sediada em Edimburgo, na Escócia. A aquisição, cujo valor não foi divulgado, dá à tecnológica de Caldas da Rainha acesso a uma tecnologia de transmissão hidráulica que permite aos drones transportar cargas mais pesadas por distâncias maiores — e representa mais um passo na acelerada expansão do grupo pelo Reino Unido e pela Europa.

Trata-se da segunda aquisição da Tekever em pouco mais de dois meses, depois de em julho ter comprado a portuguesa Cloudsweep para reforçar as suas capacidades de inteligência artificial. O movimento surge num momento em que a empresa liderada por Ricardo Mendes procura levantar 500 milhões de euros junto de investidores, numa ronda que poderá elevar a sua avaliação para 5,5 mil milhões de euros.

Uma tecnologia hidráulica que estica o alcance dos drones

O ativo central desta operação é a propriedade intelectual da Flowcopter. A empresa escocesa desenvolveu um sistema de transmissão hidráulica para propulsão aeroespacial que, segundo a Tekever, permite que os sistemas aéreos não tripulados (UAS, na sigla inglesa) transportem cargas úteis mais pesadas e voem distâncias superiores às das plataformas convencionais. Na prática, é uma forma de distribuir potência pelos rotores de um drone de grande porte sem depender exclusivamente de motores elétricos ou de transmissões mecânicas tradicionais, mais pesadas e limitadas.

Esta capacidade abre a porta a aplicações que exigem robustez e autonomia: logística avançada, evacuação de feridos, operações em plataformas offshore, missões de busca e salvamento (SAR) e resposta a catástrofes. São cenários em que a diferença entre carregar 50 ou 200 quilos, ou entre voar 200 ou 500 quilómetros, determina se uma missão é sequer viável.

O AR6 no centro da estratégia

A ligação entre as duas empresas não nasceu com o negócio. Tekever e Flowcopter já colaboravam no desenvolvimento do AR6, a nova família de drones da tecnológica portuguesa apresentada em julho no Farnborough International Airshow, no Reino Unido. A primeira plataforma desta gama incorpora precisamente a tecnologia de transmissão hidráulica da Flowcopter, o que lhe permite transportar uma carga útil de pelo menos 200 quilos e alcançar uma autonomia operacional superior a 500 quilómetros.

Ao integrar a empresa que fornece uma peça-chave do AR6, a Tekever passa a controlar internamente uma tecnologia diferenciadora, reduzindo a dependência de terceiros e acelerando o desenvolvimento de plataformas de longa autonomia e elevada capacidade de carga. É também uma aposta em conceitos avançados como a manned-unmanned teaming — a colaboração coordenada entre aeronaves tripuladas e não tripuladas em teatro de operações.

"A Flowcopter construiu uma reputação excecional em inovação de engenharia e desenvolveu tecnologia verdadeiramente diferenciada que responde a alguns dos desafios mais exigentes da aviação não tripulada", afirmou Ricardo Mendes, presidente executivo da Tekever, citado em comunicado. O gestor sublinhou ainda o "potencial transformador" do sistema de transmissão hidráulica testado no programa AR6.

Segunda compra em dois meses

A aquisição da Flowcopter confirma uma estratégia clara de crescimento por compras. Em julho, a Tekever tinha adquirido a startup portuguesa Cloudsweep, reforçando o seu músculo em inteligência artificial — o cérebro que, cada vez mais, distingue um drone comum de um sistema autónomo capaz de operar com supervisão humana mínima. Com a Flowcopter, a empresa soma competências ao nível do hardware e da propulsão.

O padrão revela uma tese de investimento coerente: em vez de desenvolver todas as tecnologias de raiz, a Tekever compra equipas e patentes que encaixam nos seus programas em curso, ganhando tempo num mercado onde a velocidade de execução é decisiva. A presença da Flowcopter na área da engenharia em Edimburgo será mantida, agora sob a marca Tekever.

Reino Unido, o segundo pilar da empresa

Com esta operação, a Tekever adiciona a Escócia a um mapa britânico já extenso. A empresa emprega mais de 300 pessoas no Reino Unido e mantém escritórios, fábricas e instalações de ensaio em Londres, Bristol, Southampton, West Wales, Lydd e Swindon. O país tornou-se um segundo pilar da companhia, sustentado por um plano de investimento de mais de 400 milhões de euros a cinco anos e pela promessa de criar mil postos de trabalho.

Fora do eixo luso-britânico, a Tekever marca presença em França, na Ucrânia, na Estónia e nos Estados Unidos. Este alargamento geográfico acompanha a procura crescente por drones de vigilância e defesa num continente que, desde a invasão da Ucrânia, canaliza somas históricas para o setor. A empresa fornece já o AR5, um drone de patrulha marítima que se tornou uma das plataformas mais utilizadas na vigilância costeira europeia e que, em agosto, foi contratado pela Força Aérea Portuguesa para missões de vigilância no mar.

Uma ronda que pode multiplicar a avaliação

O contexto financeiro ajuda a explicar o ritmo das aquisições. A Tekever tornou-se em maio de 2025 no primeiro "unicórnio" português da defesa, ao ultrapassar uma avaliação de mil milhões de euros com uma ronda liderada pela Ventura Capital e com o apoio do NATO Innovation Fund. Pouco mais de um ano depois, a empresa está a sondar investidores atuais e novos para captar 500 milhões de euros, num negócio que faria disparar a sua avaliação dos atuais 1,2 mil milhões para 5,5 mil milhões de euros.

Esse capital destina-se, precisamente, a alimentar a máquina de expansão e de compras. Num setor onde os concorrentes europeus também levantam centenas de milhões e onde os Estados aceleram encomendas, a dimensão passou a ser uma condição de sobrevivência. Comprar tecnologia como a da Flowcopter é uma forma de converter esse capital em vantagem operacional concreta.

O que está em jogo para Portugal

Para o ecossistema tecnológico nacional, a trajetória da Tekever é um caso raro: uma empresa fundada em Portugal que compete à escala global num dos setores mais estratégicos e mais bem financiados do momento. Cada aquisição consolida propriedade intelectual, atrai talento qualificado e reforça a marca portuguesa numa cadeia de valor dominada por gigantes americanos e europeus.

Os próximos meses dirão se a ronda de 500 milhões se concretiza e se a integração da Flowcopter cumpre a promessa de acelerar o AR6. Mas o rumo é inequívoco: a Tekever quer ser um dos nomes incontornáveis dos sistemas autónomos na Europa — e está a comprar, peça a peça, as tecnologias necessárias para lá chegar.

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